segunda-feira

"Arya Stark é importante para o feminismo, e não é porque ela tem uma espada"

Assim começa um texto que encontrei hoje, no Tumblr, e que me interessou tanto a ponto de traduzi-lo. Por duas razões: uma, porque fala sobre uma das minhas personagens favoritas, Arya, criada por G.R.R Martin na sua série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, e que ganhou a carinha da linda da Maisie Williams na série televisiva que adapta a saga, Game of Thrones. 

E a segunda razão, e a mais importante, é que a autora - uma fã de GoT - utiliza e defende a Arya como um exemplo realístico, de uma situação que milhares de mulheres e meninas sofrem no mundo inteiro, - que é a desvalorização da mulher quando essa não se encaixa no padrão patriarcal do que é considerado feminino e bonito - destacando sua importância para o feminismo.

Arya, que vive num cenário medieval onde a mulher é vista de forma sexista e precisa "colocar-se no seu lugar" e agradar ao patriarcado, sente-se por vezes inadequada por não conseguir suprir o que é esperado dela: que se comporte como uma dama. Ela prefere brincar com espadas e ser livre de todas essas imposições, e se mostra inconformada com a liberdade que seus irmãos recebem apenas por serem homens. É infeliz pensar na semelhança que uma história ambientada na Idade Média tem com os dias de hoje. 

A autora do texto é clara, precisa e afiada como a Agulha de Arya, e rechaça o machismo e a visão de que a mulher precisa seguir um padrão de beleza ou de comportamento determinado por homens. Ela ainda ressalta a importância de nós, mulheres, apoiarmos umas às outras. Seja fã da série de TV e dos livros ou não, o texto é interessante e traz uma mensagem de empoderamento e libertação feminina. 

Segue a tradução feita por mim - os trechos dos livros destacados no texto são da tradução oficial - e no final o link com o texto original em inglês. 

"Arya Stark é importante para o feminismo, e não é porque ela tem uma espada.

E não, não é porque ela é "mais empoderada" ou "age como um homem". Arya é importante para mulheres e meninas que não se conformam e não querem se conformar (e não deveriam ter de fazê-lo) aos padrões patriarcais do que é feminino.

Arya é importante e simpática para muitas mulheres porque ela é uma jovem menina que luta com sentimentos constantes de inadequação por causa dos padrões ridículos colocados sobre ela pelo patriarcado.


Os pontos de Arya estavam de novo tortos. 
Franziu a sobrancelha para eles, desapontada, e olhou de relance para onde a irmã Sansa estava entre as outras moças. Os bordados de Sansa eram magníficos. Todos diziam assim. "O trabalho de Sansa é tão belo quanto ela," dissera Septã Mordane à senhora sua mãe. "Ela tem mãos tão bonitas e delicadas." Quando a Senhora Catelyn lhe perguntara por Arya, a septã fungara: "Arya têm as mãos de um ferreiro." 
Arya atravessou a sala com um olhar furtivo, com receio de que Septã Mordane pudesse ter lido seus pensamentos, mas hoje a septã não lhe prestava atenção. Ela estava sentada junto a Princesa Myrcella, toda sorrisos e admiração. Não era frequente que a septã fosse privilegiada com a instrução uma princesa real nas artes femininas, como ela própria afirmara quando a rainha trouxera Myrcella. A Arya pareceu que os pontos de Myrcella também estavam um pouco tortos, mas ninguém o adivinharia pelo modo como Septã Mordane tanto elogiava.

O que é interessante sobre esse trecho não é que os pontos de Arya estão tortos, mas no último parágrafo Arya pensa que os pontos de Myrcella estão tortos também, mas ainda assim Myrcella não é posta sobre o nível de análise que Arya é, porque Myrcella é uma princesa real que se apresenta da forma que é suposto que garotas nessa sociedade sejam vistas. Em contraste, Arya é constantemente criticada por não ser como sua irmã mais velha. O bordado de Sansa é vinculado diretamente com a sua feminilidade. "O trabalho de Sansa é tão belo quanto ela ," enquanto Arya é descrita como tendo "as mãos de um ferreiro". Há uma implicação aqui de que mulheres que não se conformam com padrões específicos (padrões que são definidos por homens heterossexuais) não são mulheres "de verdade". Isso causa ansiedade em Arya porque ela é uma jovem garota, e ela passou muito da sua experiência formativa sendo dita que ela era defeituosa por isso. Mesmo depois que ela é um pouco liberta desses padrões, ela ainda pensa sobre isso frequentemente. Ela tem ansiedade sobre como sua família não vai querê-la de volta depois de ela ter vivido como um garoto e ter feito coisas "masculinas". E mesmo assim ela ainda luta para se encaixar mesmo num papel não-tradicional, porque a sociedade não tem espaço para meninas como ela.


Tentava com tanta força ser corajosa, ser feroz como um glutão ou algo assim, mas, às vezes, no final, ela sentia-se como se fosse só uma garotinha.

Arya pode ter uma espada e saber como usá-la, mas ela ainda luta com o fato de que ela é "apenas uma garotinha" e que a sociedade rotula meninas como fracas.

Eu não acho que Arya está distante da sua feminilidade, mas uma das coisas que eu acho que as pessoas falham em considerar sobre Arya é a sua idade. Eu tenho essa sensação infeliz de que parte da razão pela qual as pessoas veem Arya como menos feminina, e portanto menos feminista, é porque ela não tem idade suficiente para ser sexualizada (a série de TV é um pouco de outro assunto, porque Maisie Williams é mais velha e muito bonita). É por isso que muitas jovens meninas lutam com sua feminilidade. Não são muitas as meninas que querem brincar com espadas, mas jovens meninas não estão utilizando sua feminilidade como arma tampouco. Meninas são frequentemente humilhadas pelo patriarcado porque elas não têm idade suficiente para serem objetos sexuais, e como Arya, elas não aprenderam a como "passar", e muitas delas nunca irão, porque há muitas mulheres que não se encaixam nos padrões patriarcais: mulheres deficientes, mulheres de cor, mulheres lésbicas e bissexuais e trans, mulheres que não são boas em colocar maquiagem ou atrair um homem ou apenas não querem fazê-lo.

E isso não é apenas ok, isso é maravilhoso e feminista e digno de elogios. Isso não significa que as Sansas do mundo não merecem nosso apoio, mas Sansa não é "mais feminista" que Arya ou mais relacionável à "mulheres de verdade". É misógino sequer sugerir que existe algo como mulher "de verdade", e é especialmente suspeito quando você está definindo a feminilidade usando padrões patriarcais.

A outra coisa de que não gosto que eu vejo frequentemente nesse debate é o louvor de Sansa como um exemplo de "boa vítima", e as conotações que isso frequentemente tem para mulheres que não se encaixam nos papéis femininos tradicionais definidos pelo patriarcado. É absolutamente vital e importante apoiar mulheres que são vítimas de abuso, e Sansa definitivamente precisa desse apoio, mas o aspecto infeliz disso é que o abuso de Sansa é romantizado porque ela é feminina e bonita. Eu gosto de chamar isso de síndrome da "donzela na torre" porque isso alinha-se com a forma como o patriarcado romantiza a brutalização de mulheres bonitas, reduzindo-as a objetos sexualizados e trágicos.

A forma como Sansa é frequentemente enaltecida segue por linhas similares: ela sofre lindamente, ela não retruca (porque mulheres espertas não retrucam), ela usa sua feminilidade como uma arma. E sim, há um monte de mulheres e meninas que são como Sansa, mulheres que estão presas nas suas circunstâncias e não tem escolha a não ser tentar e interpretar um papel. Mas dizer que Sansa é "mais realista" ou "mais forte" ou que ela é mais relacionável à mulheres que sofreram abuso no mundo do que outras mulheres que sofreram abuso no texto é excludente para mulheres que não sorriem lindamente, ou não conseguem fazê-lo diante do abuso, e não usam sua feminilidade para manipular homens, mulheres que não são vistas como sexy ou femininas de acordo com os padrões patriarcais. Mulheres que não se calam, mulheres que revidam mesmo sem sucesso, mulheres que não são espertas ou sutis ou graciosas e que estão presas em situações abusivas. Mulheres que nem são mulheres, mas jovens meninas a quem foi dito que elas precisam ser sexy e femininas a fim de valerem alguma coisa antes que elas tenham sequer alcançado a puberdade, porque ser atraente para homens deveria ser o objetivo final.

É por isso que Arya é importante, e é por isso que eu sempre vou discordar com pessoas que dizem que ela é clichê ou não-realista."


O link com o texto original em inglês aqui

sábado

Essa estrela

Essa estrela que vai crescendo dentro de mim vai implodir aos poucos. Não é tortura, é um experimento muito cruel do meu próprio organismo. Eu puxo meus dedos eu puxo o ar com meus dedos como se puxa um lençol e ele se contorce numa imagem psicodélica. Como aquelas bolhas de ar saindo de dentro do Donnie Darko. É o ar ou é o tempo ou só sou eu  tentando domar a vida. Só sou. Desviando a atenção do que está na minha frente, porque eu não gosto de olhar a indiferença de frente. É melhor bailar com o ar, enquanto meus dedos sugam as coisas que eu não vejo e comprimem isso e tudo se ajeita. Mas na verdade é horrível. É horrível.

segunda-feira

Eu não sei

Às vezes eu sou como um gatinho arranhando, 
com medo demais para enfiar as unhas 
e agarrar.
E vou afundando em sono e pesar, pesar, pesar... 
Até inchar, 
pesada, com as pernas fracas, 
caindo para o chão.

E ninguém enxerga 
mas vou desaparecendo,
e sucumbindo dentro de mim mesma,
e realmente não importa que vejam.
Não quero que vejam.
Alguém dentro de mim quer que notem 
e enxerguem
e exclamem "não faça isso"
mas não sou eu.

Eu já quase não existo.
E isto não é bonito,
nem poético. 
Nem era pra ser assim.
Não era pra ser.

Não era pra ser...

Dias perfeitos

                          I

Todos nós sabemos sobre o silêncio que paira
Às cinco da tarde
num jantar entre amigas.
Entre hambúrgueres e cervejas.

E todos nós sabemos
sobre o sorriso velado
dado em uma tarde ventosa e fresca,

entre os esquadros estranhos de um quarto.

Dias perfeitos são raros, 
e correm sobre o olhar vigilante do tempo. 
O relógio marca toda serenidade
em um circulo de plástico
onde os ponteiros são meros enfeites.





quarta-feira

Nove para o universo, porque ela é fã de Hendrix

uma tesoura com cabo de plástico vermelho

cuja articulação está enferrujada

ela guincha para abrir as pernas.

marisa brinca de cortar o ar devagarinho

ela lambe as lâminas, fitando-me sugestivamente

depois de termos voltado do supermercado.

"não ponha a boca nisso, você pegará

uma infecção braba”, aconselhei

porque realmente gosto dela

só que ela é assim, riu com escárnio

"qual o risco de uma infecção

quando eu já beijei você?”

que má, que má, que megera.

com cuidado tomei-lhe a tesoura

ela observava meus movimentos, atenta

com a expressão de uma criança 

que não compreende uma bronca.

peguei em sua mão, estendi, acariciei

enfiei as aberturas do cabo de plástico vermelho

nos seus dedos indicador e médio

como se fossem duas alianças vagabundas

e lhe sorri, apaixonado.

marisa também mostrou os dentes

pequenos e ferozes enraizados na gengiva rosa

encardidos pela nicotina fumada ilegalmente nos telhados

e ela espetou minha barriga!

com as pernas fechadas da maldita tesoura

veja, eu não sangrei.

mas fiquei deprimido como o diabo

tomando meu uísque

sentado na poltrona de couro rasgado

e marisa sentada no meu colo, com ar inocente

coçando freneticamente uma ferida no braço

e eu questionando o mundo sobre ela

ou por causa dela, precisamente.

que talvez o amor seja isso mesmo

é dar a tesoura pro assassino

e ir dormir com a casa destrancada.

Joana

À joana agradava acordar cedo. Mal despertava e já se dispunha na janela para espiar. Sabia que sempre às cinco e meia passava na sua rua um ônibus amarelo e vazio; em seguida passavam também operários em suas bicicletas, vestindo casacos de grosso tecido xadrez. O cheiro de pão quente era uma alegria para ela.

Nunca entendeu que involuntário motivo a colocava de pé tão cedo. Lembrou-se que quando era pequena seu pai a chamava de passarinho, porque tinha ela os muito olhos pequenos e redondos. Era sempre assim, a voz calma a lhe dizer "bom dia passarinho, não se esqueça de que te amo, passarinho". E os passarinhos voavam baixo em torno de joana, girando o mesmo giro que fazia a renda de seu vestido e trazendo nos bicos tímidas migalhas de pão dormido. Joana, meu passarinho, corra até os pombos da praça e veja que bonito é ver eles todos alçando voo juntos, espantados com esse seu sorriso.

Ocorreu a joana ainda outra coisa, mais íntima e distante na memória: também quando era pequena sua mãe lhe falava que às seis da tarde os passarinhos todos se retiravam com suas famílias e iam para suas casas dormir. Durante a noite não se ouve um só pio de passarinho, ela lhe dizia, e na madrugada os ouvidos de joana se mantinham atentos buscando comprovar o que ela atestava. E não se ouvia mesmo um só pio de passarinho. 

A razão de irem para cama tão cedo era única: noutro dia tinham que acordar igualmente cedo para que o mundo não perdesse o horário. De manhãzinha ouve-se tanta variedade de pio de passarinho, filha. Não é preciso esforço algum para saber o quão felizes são eles.

Talvez joana fosse mesmo um passarinho.