quarta-feira

Joana

À joana agradava acordar cedo. Mal despertava e já se dispunha na janela para espiar. Sabia que sempre às cinco e meia passava na sua rua um ônibus amarelo e vazio; em seguida passavam também operários em suas bicicletas, vestindo casacos de grosso tecido xadrez. O cheiro de pão quente era uma alegria para ela.

Nunca entendeu que involuntário motivo a colocava de pé tão cedo. Lembrou-se que quando era pequena seu pai a chamava de passarinho, porque tinha ela os muito olhos pequenos e redondos. Era sempre assim, a voz calma a lhe dizer "bom dia passarinho, não se esqueça de que te amo, passarinho". E os passarinhos voavam baixo em torno de joana, girando o mesmo giro que fazia a renda de seu vestido e trazendo nos bicos tímidas migalhas de pão dormido. Joana, meu passarinho, corra até os pombos da praça e veja que bonito é ver eles todos alçando voo juntos, espantados com esse seu sorriso.

Ocorreu a joana ainda outra coisa, mais íntima e distante na memória: também quando era pequena sua mãe lhe falava que às seis da tarde os passarinhos todos se retiravam com suas famílias e iam para suas casas dormir. Durante a noite não se ouve um só pio de passarinho, ela lhe dizia, e na madrugada os ouvidos de joana se mantinham atentos buscando comprovar o que ela atestava. E não se ouvia mesmo um só pio de passarinho. 

A razão de irem para cama tão cedo era única: noutro dia tinham que acordar igualmente cedo para que o mundo não perdesse o horário. De manhãzinha ouve-se tanta variedade de pio de passarinho, filha. Não é preciso esforço algum para saber o quão felizes são eles.

Talvez joana fosse mesmo um passarinho.

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