quarta-feira

Nove para o universo, porque ela é fã de Hendrix

uma tesoura com cabo de plástico vermelho

cuja articulação está enferrujada

ela guincha para abrir as pernas.

marisa brinca de cortar o ar devagarinho

ela lambe as lâminas, fitando-me sugestivamente

depois de termos voltado do supermercado.

"não ponha a boca nisso, você pegará

uma infecção braba”, aconselhei

porque realmente gosto dela

só que ela é assim, riu com escárnio

"qual o risco de uma infecção

quando eu já beijei você?”

que má, que má, que megera.

com cuidado tomei-lhe a tesoura

ela observava meus movimentos, atenta

com a expressão de uma criança 

que não compreende uma bronca.

peguei em sua mão, estendi, acariciei

enfiei as aberturas do cabo de plástico vermelho

nos seus dedos indicador e médio

como se fossem duas alianças vagabundas

e lhe sorri, apaixonado.

marisa também mostrou os dentes

pequenos e ferozes enraizados na gengiva rosa

encardidos pela nicotina fumada ilegalmente nos telhados

e ela espetou minha barriga!

com as pernas fechadas da maldita tesoura

veja, eu não sangrei.

mas fiquei deprimido como o diabo

tomando meu uísque

sentado na poltrona de couro rasgado

e marisa sentada no meu colo, com ar inocente

coçando freneticamente uma ferida no braço

e eu questionando o mundo sobre ela

ou por causa dela, precisamente.

que talvez o amor seja isso mesmo

é dar a tesoura pro assassino

e ir dormir com a casa destrancada.

Joana

À joana agradava acordar cedo. Mal despertava e já se dispunha na janela para espiar. Sabia que sempre às cinco e meia passava na sua rua um ônibus amarelo e vazio; em seguida passavam também operários em suas bicicletas, vestindo casacos de grosso tecido xadrez. O cheiro de pão quente era uma alegria para ela.

Nunca entendeu que involuntário motivo a colocava de pé tão cedo. Lembrou-se que quando era pequena seu pai a chamava de passarinho, porque tinha ela os muito olhos pequenos e redondos. Era sempre assim, a voz calma a lhe dizer "bom dia passarinho, não se esqueça de que te amo, passarinho". E os passarinhos voavam baixo em torno de joana, girando o mesmo giro que fazia a renda de seu vestido e trazendo nos bicos tímidas migalhas de pão dormido. Joana, meu passarinho, corra até os pombos da praça e veja que bonito é ver eles todos alçando voo juntos, espantados com esse seu sorriso.

Ocorreu a joana ainda outra coisa, mais íntima e distante na memória: também quando era pequena sua mãe lhe falava que às seis da tarde os passarinhos todos se retiravam com suas famílias e iam para suas casas dormir. Durante a noite não se ouve um só pio de passarinho, ela lhe dizia, e na madrugada os ouvidos de joana se mantinham atentos buscando comprovar o que ela atestava. E não se ouvia mesmo um só pio de passarinho. 

A razão de irem para cama tão cedo era única: noutro dia tinham que acordar igualmente cedo para que o mundo não perdesse o horário. De manhãzinha ouve-se tanta variedade de pio de passarinho, filha. Não é preciso esforço algum para saber o quão felizes são eles.

Talvez joana fosse mesmo um passarinho.